Monday, February 1, 2010

Desafio do pudim de leite condensado light SEM LEITE CONDENSADO!



Imitação dietética - diet - de pudim de leite condensado tradicional: com furinhos!

(Receita pesquisada na internet e testada em casa. Modificada da genial receita original de Carol Emboava, cuja receita deliciosa testei -com fotos demonstrando os furinhos).

A melhor notícia para convencê-los a experimentar fazer em casa: a receita dividida em 13 fatias apresenta 49 calorias por porção!!! Não, não é erro: quarenta e nove caloriazinhas. Menos que uma barra de cereal.

A princípio desacreditei, especialmente pela cor e receita da calda, mas a Sra. Carol estava certa:
"Não imaginava que o sabor dessa receita poderia ficar tãaaao parecido com o pudim de leite original. Fiz mais pra testar, mas me surpreendi com o resultado final... ...sabor muitíssimo parecido, a aparência idem, ... Não é uma maravilha? E sem sabotar a dieta! hehehe!"

Segue a receita modificada após os meus testes:

Pudim:
- 2 copos americanos de água filtrada;
- 1 copo americano de leite em pó desnatado UHT;
- 1 copo americano de adoçante em pó culinário: exs: "Tal e Qual", sucralose, etc...;
- 3 ovos médios -a única indulgência;

-uma folha de gelatina - ou 1/2 pacote da em pó) sem sabor;

-4 gotas de corante alimentar marrom ou caramelo.

Calda:
- 1 copo americano de adoçante culinário em pó;
- 1 colheres de sopa de água;

-1 colher de café de corante alimentar marrom ou caramelo - a quantidade pode ter de ser ajustada.

Preparo:

Bater todos os ingredientes do pudim juntos no liquidificador. Apenas separe 1/2 copo de água e ferva no microondas para dissolver a gelatina. Bater novamente e despejar na forma com furo central com a calda que foi previamente feita levando o adoçante, a água e o corante ao fogo bem baixo. Dissolva bem. Deve engrossar, mas não ao ponto da calda de açúcar. A calda é despejada primeiro. Cubra com papel alumínio e leve ao forno médio em banho maria por 40 minutos. Após esfriar, desenforme e leve à geladeira por 2 a 3h.

Thursday, January 14, 2010

Enjoy Estefanio


(Imagem: divulgação. Aumenta quando clicada.)

Tuesday, December 8, 2009

Small I am...

...but strong, in The Force.

Hoje recebi a ligação de um amigo questionando meus valores, meus sonhos, minhas atitudes e minha vida. Apenas pude responder que nada é certo, e que a gente teima em seguir em frente.

Em um tempo que não pode ser medido e num lugar muito, mas muito distante, que não existe mais, exceto em minha memória, houve uma casa em que eu morava com um amigo. Praticamente um irmão. E ele me entendia com uma simples olhadela e eu correspondia. Porque sabíamos já que a realidade não passava de uma ilusão, o "mundo" de uma escola e que se levar a sério demais deixa a gente doente.

Sinto pena dos que não percebem que este blogue mescla realidade e ficção de um modo tão simples que não é difícil separá-las, ao menos sob as convenções tradicionais.

Mas meu amigo mandou-me uma carta, dessas de papel e tinta, escrita em uma língua que ninguém mais fala, exceto nós. Ele disse que está muito triste e viria me ajudar, se a viagem não fosse tão longa, difícil e custosa. Ele está triste por mim e pelo tempo excessivo que tenho me demorado em alguns aprendizados, ou mesmo releituras de coisas que ambos já sabemos. Mas numa frase ele me confortou:
...amigo, confio em ti, e nisso tenho meu consolo. Te espero daqui na melhor das torcidas.

Coitados daqueles que não têm amigos, não trocam cartas ou confidências. Porque de mais nada é feito o tênue tecido da vida.


P.S.: o "keymaker" está a caminho.

Wednesday, December 2, 2009

A Sorte de Catarina

Há muito tempo atrás, viveu um mercador muito rico e generoso, que possuía um palácio deslumbrante. O orgulho de sua vida era sua filha, uma linda criatura chamada Catarina. Catarina era alta e magra, com cabelos negros e olhos grandes e brilhantes. Suas mãos e seus pés eram pequenos e delicados, sua pele tão macia como as pétalas de uma rosa.

No palácio havia tronos de ouro, turquesas enfeitavam cadeiras de prata, rubis as molduras dos quadros e diamantes as fontes de água. Tudo ao redor de Catarina era luxo e beleza. Pavões passeavam pelos jardins, flores desabrochavam em vasos pendurados nas árvores, em suma, o melhor que o dinheiro podia comprar.

Um dia, quando Catarina estava andando pelo jardim, vestida numa longa túnica de seda bordada em finíssimas pérolas, com um capuz do qual pendiam outras tantas fileiras de pérolas, uma dama de aparência elegante surgiu à sua frente. Havia algo de notável nessa mulher, seus olhos eram muito penetrantes e escuros, suas roupas pareciam não ser nada além de cortinas luminosas.

- Catarina, minha querida criança, disse a dama, o que você prefere: gostaria de gozar sua vida na sua juventude ou gostaria de gozá-la na sua velhice ? Você tem somente essas duas escolhas.

Catarina pensou por um momento e então falou:

- Se eu tiver o meu prazer agora, sofrerei por isto nos meus últimos anos?

E a dama alta respondeu: Sim.

- Mas como é que você sabe ? perguntou Catarina, que continuava a ponderar sobre a questão.

- Porque eu sou a sua Sorte, respondeu a aparição.

- Oh, então eu terei a minha boa fortuna na minha velhice, disse Catarina.

- Muito bem, que assim seja, disse a sua Sorte, e desapareceu.

Catarina nada pensou a respeito desse encontro e retornou até sua casa para trocar suas roupas por outras ainda mais finas. Mas alguns dias depois algumas coisas terríveis começaram a acontecer.

Uma grande tempestade se abateu sobre o mar. O pai de Catarina estava esperando seus navios voltarem de um país estrangeiro, carregados de ricas mercadorias, mas todos eles foram mandados para o fundo do oceano pela tormenta.

Seus armazéns foram queimados por um misterioso fogo; então, quando ele decidiu preparar novos navios, nada havia para colocar dentro deles. Ele alugou seus barcos a um duque, que queria acompanhar um príncipe que seguia para a guerra, mas todas as naus foram afundadas num encontro com piratas. Os homens do duque foram mortos e o próprio duque ficou sem um tostão.

Ladrões arrombaram a casa e roubaram todas as jóias de Catarina; suas roupas foram então vendidas para que eles tivessem o que comer por mais algum tempo. Por fim, infeliz e doente, o pai de Catarina morreu, deixando-a só no mundo. Sem dinheiro e com roupas muito simples, Catarina decidiu abandonar essa cidade que havia lhe trazido tanta má sorte e encontrar, se possível, algum trabalho num outro lugar. Então ela disse adeus à cidade onde nascera e começou sua longa e penosa marcha.

Finalmente alcançou uma aristocrática cidade longe de seu próprio país, e parou um instante no meio da rua, imaginando aonde ir. Tinha um pouco de dinheiro, que uma antiga ama havia lhe dado, e estava pensando aonde poderia comprar um pouco de pão.

Uma senhora de boa posição, olhando para fora de sua janela, viu-a e chamou-a:

- Quem é você, minha querida, e de onde vêm? Você não é dessa parte do mundo.

- Senhora, estou sozinha no mundo, pois meu pai, que uma dia foi um rico mercador, morreu. Procuro um lugar onde possa comprar um pouco de pão.

- Venha para minha casa, eu preciso de uma criada e você desempenhará essa função muito bem, disse a nobre senhora; e Catarina entrou agradecida na enorme construção.

A senhora afeiçoou-se muito a ela, e lhe confiava todos os seus bens. Um dia a dona da casa lhe disse:

- Preciso sair por um momento; feche bem a porta e não deixe ninguém entrar ou sair até que eu volte.

Então Catarina fechou a porta e sentou-se perto do fogo. Mas a nobre senhora havia saído, a porta se abriu e sua Sorte entrou.

- Olhe, aí está você, Catarina ! gritou sua Sorte asperamente. - Arranjou um bom lugar para ficar, não é mesmo ? Bem, você não pode escapar de mim dessa maneira, sabe... E começou a atirar no chão todos os objetos de valor das dona da casa, quebrando vidros e porcelanas, rasgando em pedaços linhos caríssimos.

- Oh, não, não, não!!! gritou Catarina. - Isso vai me causar problemas terríveis! A senhora confia em mim!!

- Ela confia ? zombou sua sorte. - Bem, então explique isso quando ela voltar... e transformou a longas cortinas de seda em farrapos.

Catarina colocou as mãos no rosto e fugiu, correndo da casa, sem nunca olhar para trás, no caso de sua sorte estar lhe seguindo. Mal ela acabara de sair, sua Sorte colocou tudo novamente como estava antes e desapareceu.

Quando a senhora retornou, a casa estava perfeitamente arrumada, mas Catarina tinha ido embora. A senhora chamou e chamou, mas claro que a pobre garota não ouviu, pois estava já muito longe.

A dama examinou tudo, pensando que talvez Catarina a tivesse roubado, mas nada estava lhe faltando. Ela não podia entender o que acontecera, pois a garota parecia ser de toda confiança.

Ora, a pobre Catarina correu até alcançar outra cidade e, ao procurar um lugar onde pudesse comprar um pouco de pão, outra senhora que estava parada na janela a notou. A dama abriu a janela e lhe falou:

- De onde você é e o que faz neste lugar, já que é obvio que está perdida?

- Sou uma pobre garota de longe e procuro algo para comer, pois tenho muita fome, respondeu Catarina.

- Bem, venha para minha casa, disse a dama. - Eu vou alimentá-la, vesti-la, e arranjar-lhe um lugar entre a minha criadagem. Então, Catarina entrou. Mas a mesma coisa aconteceu, como antes.

Assim que ela se estabeleceu na casa e todos os valores lhe foram confiados, sua Sorte apareceu e criou o caos em apenas alguns segundos.

- Você pensa que há algum lugar nesse mundo onde eu não seja capaz de encontrá-la ? gritou sua sorte asperamente, derrubando frascos de incenso de valor incalculável que se espatifaram no chão. Catarina colocou as mãos no rosto e correu.

E assim foi durante sete anos. Cada vez que Catarina era acolhida por alguma simpática senhora, o aparecimento de sua Sorte fazia com que ela tivesse que partir em viagem, infinitamente, parecia-lhe. Mas ela nunca conseguia escapar por muito tempo. Porém, - e isto Catarina não sabia – sua Sorte sempre restaurava tudo à antiga forma, no mesmo minuto em que Catarina desaparecia.

Bem, sete anos se passaram e quando Catarina estava trabalhando para uma senhora nobre, muito bondosa de coração, parecia que sua Sorte quase havia se esquecido dela. Dia após dia Catarina cuidava da casa, e tudo dava certo para ela. No entanto, a tensão era muito grande, pois a cada hora ela esperava que a porta se abrisse e sua Sorte aparecesse.

Todo dia ela devia ir à montanha para sua patroa, com uma cesta repleta dos mais finos pães e queijos. Uma figura alta e digna pegava a cesta de suas mãos graciosamente a cada dia e, após cumprimentá-la, desaparecia na caverna.

Um dia sua senhora patroa lhe disse:

- Sempre procuro ganhar as boas graças de minha Sorte dessa maneira. Se eu não lhe enviar pão fresco e queijo, tremo só em pensar o que ela poderia causar-me.

Nesse momento, Catarina começou a chorar, incapaz de esconder sua dor, pois ela havia sofrido muito nesses últimos sete anos, e não conseguia continuar escondendo sua tristeza.

- Minha querida criança, o que está acontecendo com você ? Conte-me logo! gritou a nobre senhora, colocando sua mão no ombro de Catarina.

Então Catarina contou-lhe a história da crueldade de sua sorte, e completou:

- Penso que não posso continuar nessa angústia, esperando que ela apareça a qualquer momento e transforme tudo em pedaços, como já fez tantas vezes. Na verdade, quero ir embora daqui logo, pois dessa forma não trarei a destruição de minha sorte para esta casa.

- Agora, deixe-me pensar num plano, disse a nobre mulher, balançando a cabeça. - Sim, já sei ! Quando você for à montanha levar o pão para minha Sorte, conte-lhe sua história e apele para que ela tenha uma palavrinha com a sua Sorte, para que deixe de atormentá-la dessa maneira. Tenho certeza de que minha Sorte, que é bondosa, ajudará.

Assim, no dia seguinte, quando Catarina foi até a montanha levar a cesta para a Sorte de sua senhora, pediu para que ela intercedesse junto à sua própria Sorte.

- Bem, sua Sorte está dormindo debaixo de sete cobertores nesse momento, disse a sorte de sua patroa. Mas quando você vier amanhã, eu a levarei junto comigo até ela, pois deve estar acordada.

Catarina foi embora cheia de esperanças e dormiu esta noite quase que completamente em paz. Ao levar o pão à montanha na manha seguinte, a Sorte de sua senhora levou-a até a sua própria Sorte, que estava deitada numa grande cama, enfiada até os olhos debaixo de sete cobertores de pena.

- Bem, irmã, aqui está Catarina, disse a Sorte de sua nobre senhora. - Pare de atormentá-la desse jeito, deixe-a um pouco em paz agora, eu lhe peço.

Sua sorte disse apenas:

- Aqui está uma meada de seda, ela lhe será muito útil, cuide dela com carinho. Agora deixe-me descansar. E desapareceu debaixo dos cobertores.

Intrigada com isso, Catarina voltou para casa. Sua patroa estava ansiosa para saber o que acontecera, mas a história que Catarina lhe contou não parecia ter nem pé nem cabeça.

- Essa seda não vale muita coisa, mas é melhor você guardá-la. Ela lhe deve ser útil, como sua Sorte disse, falou a nobre mulher.

O rei daquele país, que era jovem e extremamente bonito, estava para se casar. O alfaiate real estava muito constrangido, pois descobriu que, em todo o reino, não se encontrava seda da cor apropriada em quantidade suficiente para costurar o traje de núpcias do rei.

- Lancem uma proclamação, disse o Rei. Preciso que minha roupa fique pronta a tempo. Enviem-na aos quatro países que fazem fronteira com meu reino e aos quatro cantos dos meus domínios! Qualquer pessoa que tiver seda dessa cor deve trazê-la até a corte e eu a recompensarei generosamente.

A nobre senhora ouviu a proclamação e veio contar para Catarina:

- Catarina, minha criança, coloque coloque este vestido e leve esta meada de seda até a corte. É exatamente a cor que o alfaiate está procurando, ela gritou excitada. - Tenho certeza que você será generosamente recompensada.

Quando Catarina apareceu na corte e se postou diante do trono, o jovem rei achou-a tão bela que não conseguiu desgrudar os seus olhos daquele rosto.

- Sua majestade, disse Catarina, será que esta seda é adequada para seu traje de núpcias?

- Você será paga com puro ouro por ela, disse o Rei. Tragam a balança e pesaremos essa meada. Seja qual for o seu peso, você receberá o mais fino ouro do meu reino por ela.

Trouxeram a balança, mas não importava quanto ouro fosse colocado, a meada sempre continuava pesando mais. O rei mandou trazer mais balanças, maiores que primeira, e despejou todo seu tesouro nelas, mas a meada de seda continuava pesando mais.

Então, no auge da exasperação, e rei tirou a coroa de sua cabeça e colocou-a na balança. No mesmo instante a balança se equilibrou e o rei sorriu.

- Onde você conseguiu essa seda, minha querida ? ele perguntou a Catarina.

- De minha Patroa, disse Catarina.

- Impossível ! gritou o rei. Que tipo de mulher é sua patroa para possuir uma seda mágica como essa ?

Então Catarina contou ao rei tudo o que havia lhe acontecido, e ele tomou-lhe as mãos entre as suas:

- Vou me casar com você em vez de com a jovem à qual eu havia sido prometido. Ele disse e assim aconteceu.

Daí em diante, Catarina, que tinha sofrido tanto em sua juventude, viveu até se tornar uma senhora bem velhinha, e foi feliz até o momento de sua morte como rainha desse longínquo país.

Friday, November 20, 2009

Certa Vez

Há muito tempo atrás, "mais longe que os mais altos pássaros da memória alcançam", em que fui a trabalho - na época ainda não era do RH - numa cidade à beira de escarpas rochosas impiedosamente açoitadas pelo mar. As escarpas eram altas, e também as distâncias enormes, mas mesmo assim já havia terminado o trabalho e tinha dois dias livres. Até porque depois de um tempo convivendo com humanos sem consciência das ilusões da realidade, somos contaminados com algumas de suas manias. Resolvi folgar.

Um pouco afastado das rochas, cerca de uns 3.000m, havia um campo de lavandas que perdia-se da vista no horizonte. No meio das flores azuis vi pela primeira vez um dos meus maiores amigos, mestres, e que até hoje manda-me mensagens nas horas mais necessárias - sim, pois no RH só tem gente de olho no seu cargo, ou não seria do Inferno.

Disse Clarice Lispector - se não me engano - que amigos não se fazem, se reconhecem. E nos reconhecemos. Ele me chamou de longe com um aceno, suas roupas alvas contrastando com o campo azul. Disse-me que, sem medo de pretensão ou de parecer louco, tinha achado alguém a quem quisesse ensinar coisas que aprendeu em sua longa travessia.

Ensinou-me as coisas mais importantes da minha vida - com poucos concorrentes. Mas foi curso breve, relâmpago. A cada semana nos reuníamos no campo de lavandas e eu ouvia ele falar.

Certo dia, ele me disse que já tinha passado o que considerava o necessário para mim, e que, sem que perdêssemos contato, estes se espaçariam e seriam sempre breves e em momentos de crises pessoais. Explicou-me que era de um lugar muito distante, e que a viagem era muito demorada e custosa.

Neste ano, após 16 anos da última comunicação, quebrou o silêncio e mandou-me três avisos e um presente.

Só compreendi ainda o primeiro aviso, para o qual já providenciei preparativos. Mas tenho a certeza de que até o fim do ano entendo tudo - às vezes sou um tanto lento, não vendo o que se põe à frente do meu nariz.

Depois de M. (citado em outro conto), este foi o melhor reencontro de anos, em um ano particularmente difícil.

Wednesday, November 4, 2009

Prólogo

“Oh, Cidade de Tróia! A grande Tróia está em chamas!” Rossetti
“Antes do nascimento de Páris, Hécuba, rainha de Tróia, sonhou que tinha dado à luz
um facho que destruiria pelo fogo as muralhas de Tróia.”

PRÓLOGO
A chuva caíra o dia inteiro; ora densa, ora em finos aguaceiros, mas nunca cessando
por completo. As mulheres levaram os seus fusos para dentro, para junto da lareira, e as
crianças amontoaram-se sob as sacadas do pátio. Aventuravam-se a sair por breves minutos
entre dois aguaceiros para chapinhar nas poças rodeadas por fiadas de tijolo e patinhar de
lama o caminho até a lareira. Ao fim da tarde, a mais velha das mulheres que se encontravam
junto ao fogo julgava enlouquecer com o som dos gritos e do chafurdar, das cargas dos
pequenos exércitos, do embate das espadas de pau nos escudos de madeira, com o som dos
estilhaços e das brigas causadas pelos brinquedos quebrados, as lealdades deslocadas de chefe
para chefe, os gritos de “morto” e “ferido” quando alguém era excluído da brincadeira.
A chuva que caía pela chaminé era ainda demasiada para permitir cozinhar em
condições na lareira; com o escurecer do dia de inverno ia se acendendo o lume nos braseiros.
À medida que o cheiro bom da carne e do pão a cozer se ia espalhando, as crianças vinham
uma após outra acocorar-se como cachorros famintos, inspirando ruidosamente e discutindo
ainda, a meia voz. Pouco antes do jantar uma visita apareceu à porta: um menestrel, um
caminhante cuja lira, suspensa do ombro, lhe garantia o bom acolhimento e o alojamento onde
quer que fosse. Depois de lhe terem oferecido comida, um banho e roupas secas, o menestrel
veio e tomou o lugar destinado aos convidados mais bem-vindos, perto do fogo. Começou a
afinar o seu instrumento, encostando o ouvido às cravelhas de tartaruga e testando o som com
o dedo. Em seguida, sem pedir licença - já nesse tempo um bardo fazia o que entendia -
dedilhou um único e sonante acorde e declamou:
“Cantarei as batalhas e os grandes homens que nelas combateram; Os homens que
permaneceram por dez anos defronte das muralhas de Tróia, erigidas por gigantes;
E os Deuses que derrubaram, por fim, essas muralhas: Apolo, Senhor do Sol, e
Posídon, O que Faz Tremer a Terra.
Cantarei a lenda da vida do poderoso Aquiles, nascido de uma Deusa, tão forte que
arma alguma o poderia destruir. E mesmo a história do seu orgulho e arrogância e aquela
batalha em que ele e o grande Heitor lutaram ao longo de três dias nas planícies, frente às
altas muralhas de Tróia;
O orgulhoso Heitor e o galante Aquiles, os Centauros e as Amazonas, Deuses e
heróis,
Odisseu e Enéias, todos os que combateram e foram mortos nas planícies, diante de
Tróia...”
— Não! — exclamou a velha bruscamente, deixando cair o fuso e levantando-se. —
Não o permitirei! Não quero ouvir esses disparates contados na minha sala!
O menestrel deixou a mão esquerda tombar sobre as cordas, num tanger dissonante; o
seu ar era de desalento e surpresa, mas o tom de voz foi cortês.
— Senhora?
— Digo que não permitirei que essas estúpidas mentiras sejam contadas junto à minha
lareira! — disse ela veementemente.
As crianças soltaram sons de desapontamento; ela silenciou-as com um gesto
imperioso.
— Menestrel, és bem-vindo a tomar a tua refeição e a sentar-te ao pé do meu fogo;
mas não permitirei que enchas os ouvidos das crianças com essas mentiras sem sentido. Isso
não foi, de todo, assim.
— Verdade? — inquiriu o tocador de harpa. — Como o sabes, senhora? Eu canto a
lenda como me foi ensinada pelo meu mestre, tal como é cantada em todos os lugares desde
Creta a Cálcis...
— Pode ser cantada dessa forma desde aqui até a ponta do mundo — disse a velha —,
mas não foi, de todo, assim que aconteceu.
— Como sabes? — perguntou o menestrel.
— Porque estava lá e assisti a tudo — replicou a velha. As crianças murmuraram e
gritaram.
— Nunca nos contaste isso, avó. Conheceste Aquiles, e Heitor, e Príamo, e os heróis
todos?
— Heróis! — disse ela com desdém. — Sim, conheci-os; Heitor era meu irmão.
O menestrel inclinou-se para diante e olhou-a insistentemente.
— Sei agora quem és — disse ele por fim.
Ela assentiu inclinando a cabeça branca.
— Então talvez tu, senhora, devesses contar a história; eu, que sirvo o Deus da
verdade, não mais cantaria mentiras para serem escutadas por todos os homens.
A velha ficou por longo tempo em silêncio. Por fim, disse:
— Não, não consigo viver tudo aquilo de novo.
As crianças lamentaram-se, desapontadas.
— Não tens outra lenda para cantar?
— Muitas — disse o tocador de harpa — mas não queria contar uma história da qual
escarnecesses como de uma mentira. Por que não contas a verdade para que eu possa cantá-la
em outros lugares?
Ela sacudiu energicamente a cabeça.
— A verdade não é uma boa história.
— Não podes ao menos dizer-me quais são os desvios da minha história, para que eu a
possa emendar?
Ela suspirou.
— Houve um tempo em que eu teria tentado — disse — mas nenhum homem quer
acreditar na verdade. Porque a tua história fala de heróis e reis, não de rainhas; e de Deuses,
não de Deusas.
— Não é bem assim — disse o tocador de harpa — pois grande parte da história fala
da bela Helena, raptada por Páris; e de Leda, a mãe de Helena, e sua irmã Clitemnestra,
seduzida pelo grande Zeus, o qual tomou a forma de seu marido, o rei...
— Sabia que não poderias compreender — disse a velha mulher — já que, para
começar, nesta terra a princípio não existiam reis, mas somente rainhas, as filhas das Deusas e
estas escolhiam os seus consortes onde queriam. Mas, depois, os adoradores dos Deuses do
Céu, a tribo dos cavaleiros, os utilizadores do ferro, desceram à nossa terra; e quando as
rainhas os tomaram como consortes, eles intitularam-se reis e exigiram o direito de governar.
E assim os Deuses e Deusas se tornaram rivais; e chegou o tempo em que Tróia foi palco das
suas disputas... — deteve-se abruptamente. — Basta! — disse ela. — O mundo mudou. Vejo
que me julgas uma velha cujo espírito divaga. Este foi sempre o meu destino: falar a verdade
e nunca ser acreditada. Sempre foi assim e sempre assim será. Canta o que quiseres; mas não
zombes da minha verdade junto à minha lareira. Há muitas lendas. Conta-nos a de Medéia,
Senhora de Cálcis, e do tosão dourado que Jasão roubou do seu santuário, se é que o fez.
Ousaria dizer que também para essa lenda existe outra verdade, mas eu não a conheço nem
me interessa saber qual será; há muitos e longos anos que não ponho pé em Cálcis. —
Apanhou o seu fuso e, calmamente, começou a fiar.
O tocador de harpa baixou a cabeça.
— Seja como queres, Cassandra — disse ele. — Todos pensamos que morreras em
Tróia ou, pouco depois, em Micenas.
— Então isso devia provar-te que, pelo menos em certos detalhes, a lenda não diz a
verdade — disse ela, mas em voz baixa.
“Mantém-se a minha sina: falar sempre a verdade e ser apenas julgada louca. Até
hoje, o Senhor do Sol não me perdoou...”

Monday, November 2, 2009

Absoluta