Há muito tempo atrás, "mais longe que os mais altos pássaros da memória alcançam", em que fui a trabalho - na época ainda não era do RH - numa cidade à beira de escarpas rochosas impiedosamente açoitadas pelo mar. As escarpas eram altas, e também as distâncias enormes, mas mesmo assim já havia terminado o trabalho e tinha dois dias livres. Até porque depois de um tempo convivendo com humanos sem consciência das ilusões da realidade, somos contaminados com algumas de suas manias. Resolvi folgar.
Um pouco afastado das rochas, cerca de uns 3.000m, havia um campo de lavandas que perdia-se da vista no horizonte. No meio das flores azuis vi pela primeira vez um dos meus maiores amigos, mestres, e que até hoje manda-me mensagens nas horas mais necessárias - sim, pois no RH só tem gente de olho no seu cargo, ou não seria do Inferno.
Disse Clarice Lispector - se não me engano - que amigos não se fazem, se reconhecem. E nos reconhecemos. Ele me chamou de longe com um aceno, suas roupas alvas contrastando com o campo azul. Disse-me que, sem medo de pretensão ou de parecer louco, tinha achado alguém a quem quisesse ensinar coisas que aprendeu em sua longa travessia.
Ensinou-me as coisas mais importantes da minha vida - com poucos concorrentes. Mas foi curso breve, relâmpago. A cada semana nos reuníamos no campo de lavandas e eu ouvia ele falar.
Certo dia, ele me disse que já tinha passado o que considerava o necessário para mim, e que, sem que perdêssemos contato, estes se espaçariam e seriam sempre breves e em momentos de crises pessoais. Explicou-me que era de um lugar muito distante, e que a viagem era muito demorada e custosa.
Neste ano, após 16 anos da última comunicação, quebrou o silêncio e mandou-me três avisos e um presente.
Só compreendi ainda o primeiro aviso, para o qual já providenciei preparativos. Mas tenho a certeza de que até o fim do ano entendo tudo - às vezes sou um tanto lento, não vendo o que se põe à frente do meu nariz.
Depois de M. (citado em outro conto), este foi o melhor reencontro de anos, em um ano particularmente difícil.
Wednesday, November 4, 2009
Prólogo
“Oh, Cidade de Tróia! A grande Tróia está em chamas!” Rossetti
“Antes do nascimento de Páris, Hécuba, rainha de Tróia, sonhou que tinha dado à luz
um facho que destruiria pelo fogo as muralhas de Tróia.”
“Antes do nascimento de Páris, Hécuba, rainha de Tróia, sonhou que tinha dado à luz
um facho que destruiria pelo fogo as muralhas de Tróia.”
PRÓLOGO
A chuva caíra o dia inteiro; ora densa, ora em finos aguaceiros, mas nunca cessando
por completo. As mulheres levaram os seus fusos para dentro, para junto da lareira, e as
crianças amontoaram-se sob as sacadas do pátio. Aventuravam-se a sair por breves minutos
entre dois aguaceiros para chapinhar nas poças rodeadas por fiadas de tijolo e patinhar de
lama o caminho até a lareira. Ao fim da tarde, a mais velha das mulheres que se encontravam
junto ao fogo julgava enlouquecer com o som dos gritos e do chafurdar, das cargas dos
pequenos exércitos, do embate das espadas de pau nos escudos de madeira, com o som dos
estilhaços e das brigas causadas pelos brinquedos quebrados, as lealdades deslocadas de chefe
para chefe, os gritos de “morto” e “ferido” quando alguém era excluído da brincadeira.
A chuva que caía pela chaminé era ainda demasiada para permitir cozinhar em
condições na lareira; com o escurecer do dia de inverno ia se acendendo o lume nos braseiros.
À medida que o cheiro bom da carne e do pão a cozer se ia espalhando, as crianças vinham
uma após outra acocorar-se como cachorros famintos, inspirando ruidosamente e discutindo
ainda, a meia voz. Pouco antes do jantar uma visita apareceu à porta: um menestrel, um
caminhante cuja lira, suspensa do ombro, lhe garantia o bom acolhimento e o alojamento onde
quer que fosse. Depois de lhe terem oferecido comida, um banho e roupas secas, o menestrel
veio e tomou o lugar destinado aos convidados mais bem-vindos, perto do fogo. Começou a
afinar o seu instrumento, encostando o ouvido às cravelhas de tartaruga e testando o som com
o dedo. Em seguida, sem pedir licença - já nesse tempo um bardo fazia o que entendia -
dedilhou um único e sonante acorde e declamou:
“Cantarei as batalhas e os grandes homens que nelas combateram; Os homens que
permaneceram por dez anos defronte das muralhas de Tróia, erigidas por gigantes;
E os Deuses que derrubaram, por fim, essas muralhas: Apolo, Senhor do Sol, e
Posídon, O que Faz Tremer a Terra.
Cantarei a lenda da vida do poderoso Aquiles, nascido de uma Deusa, tão forte que
arma alguma o poderia destruir. E mesmo a história do seu orgulho e arrogância e aquela
batalha em que ele e o grande Heitor lutaram ao longo de três dias nas planícies, frente às
altas muralhas de Tróia;
O orgulhoso Heitor e o galante Aquiles, os Centauros e as Amazonas, Deuses e
heróis,
Odisseu e Enéias, todos os que combateram e foram mortos nas planícies, diante de
Tróia...”
— Não! — exclamou a velha bruscamente, deixando cair o fuso e levantando-se. —
Não o permitirei! Não quero ouvir esses disparates contados na minha sala!
O menestrel deixou a mão esquerda tombar sobre as cordas, num tanger dissonante; o
seu ar era de desalento e surpresa, mas o tom de voz foi cortês.
— Senhora?
— Digo que não permitirei que essas estúpidas mentiras sejam contadas junto à minha
lareira! — disse ela veementemente.
As crianças soltaram sons de desapontamento; ela silenciou-as com um gesto
imperioso.
— Menestrel, és bem-vindo a tomar a tua refeição e a sentar-te ao pé do meu fogo;
mas não permitirei que enchas os ouvidos das crianças com essas mentiras sem sentido. Isso
não foi, de todo, assim.
— Verdade? — inquiriu o tocador de harpa. — Como o sabes, senhora? Eu canto a
lenda como me foi ensinada pelo meu mestre, tal como é cantada em todos os lugares desde
Creta a Cálcis...
— Pode ser cantada dessa forma desde aqui até a ponta do mundo — disse a velha —,
mas não foi, de todo, assim que aconteceu.
— Como sabes? — perguntou o menestrel.
— Porque estava lá e assisti a tudo — replicou a velha. As crianças murmuraram e
gritaram.
— Nunca nos contaste isso, avó. Conheceste Aquiles, e Heitor, e Príamo, e os heróis
todos?
— Heróis! — disse ela com desdém. — Sim, conheci-os; Heitor era meu irmão.
O menestrel inclinou-se para diante e olhou-a insistentemente.
— Sei agora quem és — disse ele por fim.
Ela assentiu inclinando a cabeça branca.
— Então talvez tu, senhora, devesses contar a história; eu, que sirvo o Deus da
verdade, não mais cantaria mentiras para serem escutadas por todos os homens.
A velha ficou por longo tempo em silêncio. Por fim, disse:
— Não, não consigo viver tudo aquilo de novo.
As crianças lamentaram-se, desapontadas.
— Não tens outra lenda para cantar?
— Muitas — disse o tocador de harpa — mas não queria contar uma história da qual
escarnecesses como de uma mentira. Por que não contas a verdade para que eu possa cantá-la
em outros lugares?
Ela sacudiu energicamente a cabeça.
— A verdade não é uma boa história.
— Não podes ao menos dizer-me quais são os desvios da minha história, para que eu a
possa emendar?
Ela suspirou.
— Houve um tempo em que eu teria tentado — disse — mas nenhum homem quer
acreditar na verdade. Porque a tua história fala de heróis e reis, não de rainhas; e de Deuses,
não de Deusas.
— Não é bem assim — disse o tocador de harpa — pois grande parte da história fala
da bela Helena, raptada por Páris; e de Leda, a mãe de Helena, e sua irmã Clitemnestra,
seduzida pelo grande Zeus, o qual tomou a forma de seu marido, o rei...
— Sabia que não poderias compreender — disse a velha mulher — já que, para
começar, nesta terra a princípio não existiam reis, mas somente rainhas, as filhas das Deusas e
estas escolhiam os seus consortes onde queriam. Mas, depois, os adoradores dos Deuses do
Céu, a tribo dos cavaleiros, os utilizadores do ferro, desceram à nossa terra; e quando as
rainhas os tomaram como consortes, eles intitularam-se reis e exigiram o direito de governar.
E assim os Deuses e Deusas se tornaram rivais; e chegou o tempo em que Tróia foi palco das
suas disputas... — deteve-se abruptamente. — Basta! — disse ela. — O mundo mudou. Vejo
que me julgas uma velha cujo espírito divaga. Este foi sempre o meu destino: falar a verdade
e nunca ser acreditada. Sempre foi assim e sempre assim será. Canta o que quiseres; mas não
zombes da minha verdade junto à minha lareira. Há muitas lendas. Conta-nos a de Medéia,
Senhora de Cálcis, e do tosão dourado que Jasão roubou do seu santuário, se é que o fez.
Ousaria dizer que também para essa lenda existe outra verdade, mas eu não a conheço nem
me interessa saber qual será; há muitos e longos anos que não ponho pé em Cálcis. —
Apanhou o seu fuso e, calmamente, começou a fiar.
O tocador de harpa baixou a cabeça.
— Seja como queres, Cassandra — disse ele. — Todos pensamos que morreras em
Tróia ou, pouco depois, em Micenas.
— Então isso devia provar-te que, pelo menos em certos detalhes, a lenda não diz a
verdade — disse ela, mas em voz baixa.
“Mantém-se a minha sina: falar sempre a verdade e ser apenas julgada louca. Até
hoje, o Senhor do Sol não me perdoou...”
por completo. As mulheres levaram os seus fusos para dentro, para junto da lareira, e as
crianças amontoaram-se sob as sacadas do pátio. Aventuravam-se a sair por breves minutos
entre dois aguaceiros para chapinhar nas poças rodeadas por fiadas de tijolo e patinhar de
lama o caminho até a lareira. Ao fim da tarde, a mais velha das mulheres que se encontravam
junto ao fogo julgava enlouquecer com o som dos gritos e do chafurdar, das cargas dos
pequenos exércitos, do embate das espadas de pau nos escudos de madeira, com o som dos
estilhaços e das brigas causadas pelos brinquedos quebrados, as lealdades deslocadas de chefe
para chefe, os gritos de “morto” e “ferido” quando alguém era excluído da brincadeira.
A chuva que caía pela chaminé era ainda demasiada para permitir cozinhar em
condições na lareira; com o escurecer do dia de inverno ia se acendendo o lume nos braseiros.
À medida que o cheiro bom da carne e do pão a cozer se ia espalhando, as crianças vinham
uma após outra acocorar-se como cachorros famintos, inspirando ruidosamente e discutindo
ainda, a meia voz. Pouco antes do jantar uma visita apareceu à porta: um menestrel, um
caminhante cuja lira, suspensa do ombro, lhe garantia o bom acolhimento e o alojamento onde
quer que fosse. Depois de lhe terem oferecido comida, um banho e roupas secas, o menestrel
veio e tomou o lugar destinado aos convidados mais bem-vindos, perto do fogo. Começou a
afinar o seu instrumento, encostando o ouvido às cravelhas de tartaruga e testando o som com
o dedo. Em seguida, sem pedir licença - já nesse tempo um bardo fazia o que entendia -
dedilhou um único e sonante acorde e declamou:
“Cantarei as batalhas e os grandes homens que nelas combateram; Os homens que
permaneceram por dez anos defronte das muralhas de Tróia, erigidas por gigantes;
E os Deuses que derrubaram, por fim, essas muralhas: Apolo, Senhor do Sol, e
Posídon, O que Faz Tremer a Terra.
Cantarei a lenda da vida do poderoso Aquiles, nascido de uma Deusa, tão forte que
arma alguma o poderia destruir. E mesmo a história do seu orgulho e arrogância e aquela
batalha em que ele e o grande Heitor lutaram ao longo de três dias nas planícies, frente às
altas muralhas de Tróia;
O orgulhoso Heitor e o galante Aquiles, os Centauros e as Amazonas, Deuses e
heróis,
Odisseu e Enéias, todos os que combateram e foram mortos nas planícies, diante de
Tróia...”
— Não! — exclamou a velha bruscamente, deixando cair o fuso e levantando-se. —
Não o permitirei! Não quero ouvir esses disparates contados na minha sala!
O menestrel deixou a mão esquerda tombar sobre as cordas, num tanger dissonante; o
seu ar era de desalento e surpresa, mas o tom de voz foi cortês.
— Senhora?
— Digo que não permitirei que essas estúpidas mentiras sejam contadas junto à minha
lareira! — disse ela veementemente.
As crianças soltaram sons de desapontamento; ela silenciou-as com um gesto
imperioso.
— Menestrel, és bem-vindo a tomar a tua refeição e a sentar-te ao pé do meu fogo;
mas não permitirei que enchas os ouvidos das crianças com essas mentiras sem sentido. Isso
não foi, de todo, assim.
— Verdade? — inquiriu o tocador de harpa. — Como o sabes, senhora? Eu canto a
lenda como me foi ensinada pelo meu mestre, tal como é cantada em todos os lugares desde
Creta a Cálcis...
— Pode ser cantada dessa forma desde aqui até a ponta do mundo — disse a velha —,
mas não foi, de todo, assim que aconteceu.
— Como sabes? — perguntou o menestrel.
— Porque estava lá e assisti a tudo — replicou a velha. As crianças murmuraram e
gritaram.
— Nunca nos contaste isso, avó. Conheceste Aquiles, e Heitor, e Príamo, e os heróis
todos?
— Heróis! — disse ela com desdém. — Sim, conheci-os; Heitor era meu irmão.
O menestrel inclinou-se para diante e olhou-a insistentemente.
— Sei agora quem és — disse ele por fim.
Ela assentiu inclinando a cabeça branca.
— Então talvez tu, senhora, devesses contar a história; eu, que sirvo o Deus da
verdade, não mais cantaria mentiras para serem escutadas por todos os homens.
A velha ficou por longo tempo em silêncio. Por fim, disse:
— Não, não consigo viver tudo aquilo de novo.
As crianças lamentaram-se, desapontadas.
— Não tens outra lenda para cantar?
— Muitas — disse o tocador de harpa — mas não queria contar uma história da qual
escarnecesses como de uma mentira. Por que não contas a verdade para que eu possa cantá-la
em outros lugares?
Ela sacudiu energicamente a cabeça.
— A verdade não é uma boa história.
— Não podes ao menos dizer-me quais são os desvios da minha história, para que eu a
possa emendar?
Ela suspirou.
— Houve um tempo em que eu teria tentado — disse — mas nenhum homem quer
acreditar na verdade. Porque a tua história fala de heróis e reis, não de rainhas; e de Deuses,
não de Deusas.
— Não é bem assim — disse o tocador de harpa — pois grande parte da história fala
da bela Helena, raptada por Páris; e de Leda, a mãe de Helena, e sua irmã Clitemnestra,
seduzida pelo grande Zeus, o qual tomou a forma de seu marido, o rei...
— Sabia que não poderias compreender — disse a velha mulher — já que, para
começar, nesta terra a princípio não existiam reis, mas somente rainhas, as filhas das Deusas e
estas escolhiam os seus consortes onde queriam. Mas, depois, os adoradores dos Deuses do
Céu, a tribo dos cavaleiros, os utilizadores do ferro, desceram à nossa terra; e quando as
rainhas os tomaram como consortes, eles intitularam-se reis e exigiram o direito de governar.
E assim os Deuses e Deusas se tornaram rivais; e chegou o tempo em que Tróia foi palco das
suas disputas... — deteve-se abruptamente. — Basta! — disse ela. — O mundo mudou. Vejo
que me julgas uma velha cujo espírito divaga. Este foi sempre o meu destino: falar a verdade
e nunca ser acreditada. Sempre foi assim e sempre assim será. Canta o que quiseres; mas não
zombes da minha verdade junto à minha lareira. Há muitas lendas. Conta-nos a de Medéia,
Senhora de Cálcis, e do tosão dourado que Jasão roubou do seu santuário, se é que o fez.
Ousaria dizer que também para essa lenda existe outra verdade, mas eu não a conheço nem
me interessa saber qual será; há muitos e longos anos que não ponho pé em Cálcis. —
Apanhou o seu fuso e, calmamente, começou a fiar.
O tocador de harpa baixou a cabeça.
— Seja como queres, Cassandra — disse ele. — Todos pensamos que morreras em
Tróia ou, pouco depois, em Micenas.
— Então isso devia provar-te que, pelo menos em certos detalhes, a lenda não diz a
verdade — disse ela, mas em voz baixa.
“Mantém-se a minha sina: falar sempre a verdade e ser apenas julgada louca. Até
hoje, o Senhor do Sol não me perdoou...”
Saturday, October 31, 2009
FHC
01 de novembro de 2009 | N° 16142
ARTIGOS
Para onde vamos?, por Fernando Henrique Cardoso*
A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da terra”, de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?
Só que cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos.
É possível escolher ao acaso os exemplos de “pequenos assassinatos”. Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira “nacionalista”, pois se o sistema atual, de concessões, fosse “entreguista” deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental em uma companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem qualquer pudor, passear pelo Brasil às custas do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?
Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: “Minha casa, minha vida”; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.
Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”. Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que tivesse se esquecido de acrescentar “l’État c’est moi”. Mas não esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender “nosso pré-sal”. Está bem, tudo muito lógico.
Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições, sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.
Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde.
*Ex-presidente da República
ARTIGOS
Para onde vamos?, por Fernando Henrique Cardoso*
A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da terra”, de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?
Só que cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos.
É possível escolher ao acaso os exemplos de “pequenos assassinatos”. Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira “nacionalista”, pois se o sistema atual, de concessões, fosse “entreguista” deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental em uma companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem qualquer pudor, passear pelo Brasil às custas do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?
Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: “Minha casa, minha vida”; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.
Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”. Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que tivesse se esquecido de acrescentar “l’État c’est moi”. Mas não esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender “nosso pré-sal”. Está bem, tudo muito lógico.
Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições, sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.
Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde.
*Ex-presidente da República
Friday, October 30, 2009
S.
Houve um tempo, tempo tão distante que não faz mais parte da lembrança da humanidade, em que nasceu um menino risonho de cabelos loiros encaracolados. Nasceu prematuro, e a Sorte quis que sobrevivesse. Digo a sorte pois não havia recurso médico em caso de complicações da prematuridade. Era um lugar muito quente, às margens de um rio caudaloso, onde não soprava o vento.
A mãe do menino não gostava daquele lugar e logo mudou-se para outro, ainda quente, mas que à noite refrescava. O menino ali cresceu e seus cabelos foram ficando lisos e morenos. Su pele era clara, mas não pálida. Seus olhos castanhos claros entregavam duas coisas a sua mãe (à época uma bruxa poderosa): seu filho era capaz de ver o mundo dos espíritos e de conhecer os penamentos e a alma das pessoas. Naquela noite chorou muito por S. - este era seu nome. Sabia no sofrimento que esses “dons” implicariam no futuro.
S. atingiu a adolescência e, após 9 gerações de bruxas comandadas por mulheres, a mãe recebeu a ordem de suas antepassadas de que S deveria ser iniciado e sucedê-la no comando do clã. Mais uma vez, assustada, chorou. Mas um antepassado em quem confiava – seu falecido pai, ele próprio bruxo -tranquilizou-a em sonho. Disse-lhe: a S foi dada o fardo da precognição, porém também a sabedoria de julgar.
S. viveu sua vida como curandeiro, ofício em que destacava-se pelas vantagens de seus secretos conhecimentos.
Faleceu e foi chamado para Emissário da Morte. Recentemente – entendam, falamos de séculos/milênios – foi descoberto por um demônio menor chamado M. - e foi chamado pelo Chefe para trabalhar no RH. É nosso Analista de Acordos para Almas Imortais, tem uma sala modesta no final do corredor, no mesmo andar que a minha, e todo mês saímos para beber. Prometeu-me um presente de Dia das Bruxas e disse: este presente violará diversas regras daqui e lá de Cima, mas danem-se. Eles quem me ensinaram a burlar as regras. Pena que só abro amanhã à noite. Meia-noite. 31/10/2009 A.D.
Resolveu “antecipar” - palavras dele – a entrega, pois ano que vem partirá. Dia 01/01. Preciso solicitar nova nomeação.
A mãe do menino não gostava daquele lugar e logo mudou-se para outro, ainda quente, mas que à noite refrescava. O menino ali cresceu e seus cabelos foram ficando lisos e morenos. Su pele era clara, mas não pálida. Seus olhos castanhos claros entregavam duas coisas a sua mãe (à época uma bruxa poderosa): seu filho era capaz de ver o mundo dos espíritos e de conhecer os penamentos e a alma das pessoas. Naquela noite chorou muito por S. - este era seu nome. Sabia no sofrimento que esses “dons” implicariam no futuro.
S. atingiu a adolescência e, após 9 gerações de bruxas comandadas por mulheres, a mãe recebeu a ordem de suas antepassadas de que S deveria ser iniciado e sucedê-la no comando do clã. Mais uma vez, assustada, chorou. Mas um antepassado em quem confiava – seu falecido pai, ele próprio bruxo -tranquilizou-a em sonho. Disse-lhe: a S foi dada o fardo da precognição, porém também a sabedoria de julgar.
S. viveu sua vida como curandeiro, ofício em que destacava-se pelas vantagens de seus secretos conhecimentos.
Faleceu e foi chamado para Emissário da Morte. Recentemente – entendam, falamos de séculos/milênios – foi descoberto por um demônio menor chamado M. - e foi chamado pelo Chefe para trabalhar no RH. É nosso Analista de Acordos para Almas Imortais, tem uma sala modesta no final do corredor, no mesmo andar que a minha, e todo mês saímos para beber. Prometeu-me um presente de Dia das Bruxas e disse: este presente violará diversas regras daqui e lá de Cima, mas danem-se. Eles quem me ensinaram a burlar as regras. Pena que só abro amanhã à noite. Meia-noite. 31/10/2009 A.D.
Resolveu “antecipar” - palavras dele – a entrega, pois ano que vem partirá. Dia 01/01. Preciso solicitar nova nomeação.
Alan Turing again
"from: aturing@mail.above.net.aa
to alexandre.lucas@rh.underworld.net.zz
date Sat, Oct 31, 2009 at 12:10 AM
subject Internet and Human Rights
mailed-by mail.above.net.aa
signed-by above.net.aa
Prezado Senhor Alexandre Lucas,
Quem lhe escreve é o antecessor em interesse pela informática Alan Turing. Recentemente saí de longa depressão desde meu suicídio com uma maçã por mim envenenada com cianureto em 1954. A história você já conhece e amigos aqui de cima disseram-me que inclusive repercutiu recentemente após o pedido de desculpas do Governo Inglês, na figura do Primeiro Ministro Gordon Brown. Confesso que esse tardio reconhecimento foi o que me tirou da depressão e auto-comiseração.
Na última semana até criei coragem e li seus posts técnicos sobre softwares e hardwares. Agradou-me o interesse mútuo, mas não é isso que me traz a estas linhas, e sim a falsa sensação de segurança e aceitação social que venho observando na comunidade GLBT.
Verdade que na maioria do mundo civilizado os tempos não são mais tão difíceis e de absurda crueldade e desumanidade como em 1954, quando deram a mim, um herói da 2a Grande Guerra, duas "opções" por ser homossexual: cadeia ou castração química. Os efeitos nefastos sobre meu corpo da 2a me levaram a considerar e levar a cabo o suicídio. Fui perdoado e por isto escrevo daqui de cima.
Tive tempo de estudar e observar o desenrolar dos tempos nestes anos todos de relativa reclusão aqui no além-morte. Posso dizer e peço que observem que a relativa aceitação, retirada do código internacional de doenças (ainda não atingido pelas comunidades trans e intersexo), redução dos direitos fundamentais negados e repressão das várias formas de preconceito e estresses familiar e profissional.
Peço atenção: não baixem a guarda. A sensação de segurança é ilusória. Para tomar como exemplo o Brasil, só ocorre em menos de meia dúzia de grandes centros urbanos, e restrita a "guetos" - palavra adequada embora com aspectos pejorativos - e é descaradamente negada às classes baixas e na maioria do país grassa o preconceito aberto, com apoio da maioria da população. Poucos corajosos vão abrindo caminho, como eu - no meu caso involuntariamente - sob grande custo pessoal.
Sabemos que seu Chefe, como o Meu, são simpatizantes. Ambos acima desses humanos atrasos mentais. Isso é que me leva a confiar que um dia a igualdade de direitos será atingida. Peço que me informe, agora que descobri a militância, em que posso ajudar.
Atenciosamente,
Alan Turing
(tradução gentil do inglês britânico para o português contemporâneo pelos anjos (agora caídos) que estiveram a instigar o povo da extinta Babel bíblica).
Minha resposta foi sucinta:
Caro Alan,
Inicialmente peço que perdoe chamá-lo pelo 1° nome, mas achei Mr. Turing por demais sisudo. Apenas lhe digo: fique tranqüilo. Veremos, não nego, retrocessos, mas a Roda da Vida gira sempre adiante, ao final. Consultei nosso jurista, Conselheiro Pavi, e ele compartilha esta opinião, também pela posição dos Poderosos, embora o Papa Palpatine pregue o contrário.
Humberto Eco já dizia que somos anões no ombro de gigantes. Tenha o orgulho de que não viveu nem sofreu em vão. Sua mensagem ficará para sempre aqui registrada.
Conselho pessoal: peça autorização ao controle de trânsito e compareça a algumas de nossas festas. Traga Harvey Milk com você. Sentirão que nada como a troca de felicidades.
Um abraço,
Alexandre Lucas.
P.S.: a Tábata já está agendando esteticista e médicos para reverterem suas seqüelas. O pessoal aí de cima é muito conservador e valoriza chagas. Águas passadas não movem moinhos.
to alexandre.lucas@rh.underworld.net.zz
date Sat, Oct 31, 2009 at 12:10 AM
subject Internet and Human Rights
mailed-by mail.above.net.aa
signed-by above.net.aa
Prezado Senhor Alexandre Lucas,
Quem lhe escreve é o antecessor em interesse pela informática Alan Turing. Recentemente saí de longa depressão desde meu suicídio com uma maçã por mim envenenada com cianureto em 1954. A história você já conhece e amigos aqui de cima disseram-me que inclusive repercutiu recentemente após o pedido de desculpas do Governo Inglês, na figura do Primeiro Ministro Gordon Brown. Confesso que esse tardio reconhecimento foi o que me tirou da depressão e auto-comiseração.
Na última semana até criei coragem e li seus posts técnicos sobre softwares e hardwares. Agradou-me o interesse mútuo, mas não é isso que me traz a estas linhas, e sim a falsa sensação de segurança e aceitação social que venho observando na comunidade GLBT.
Verdade que na maioria do mundo civilizado os tempos não são mais tão difíceis e de absurda crueldade e desumanidade como em 1954, quando deram a mim, um herói da 2a Grande Guerra, duas "opções" por ser homossexual: cadeia ou castração química. Os efeitos nefastos sobre meu corpo da 2a me levaram a considerar e levar a cabo o suicídio. Fui perdoado e por isto escrevo daqui de cima.
Tive tempo de estudar e observar o desenrolar dos tempos nestes anos todos de relativa reclusão aqui no além-morte. Posso dizer e peço que observem que a relativa aceitação, retirada do código internacional de doenças (ainda não atingido pelas comunidades trans e intersexo), redução dos direitos fundamentais negados e repressão das várias formas de preconceito e estresses familiar e profissional.
Peço atenção: não baixem a guarda. A sensação de segurança é ilusória. Para tomar como exemplo o Brasil, só ocorre em menos de meia dúzia de grandes centros urbanos, e restrita a "guetos" - palavra adequada embora com aspectos pejorativos - e é descaradamente negada às classes baixas e na maioria do país grassa o preconceito aberto, com apoio da maioria da população. Poucos corajosos vão abrindo caminho, como eu - no meu caso involuntariamente - sob grande custo pessoal.
Sabemos que seu Chefe, como o Meu, são simpatizantes. Ambos acima desses humanos atrasos mentais. Isso é que me leva a confiar que um dia a igualdade de direitos será atingida. Peço que me informe, agora que descobri a militância, em que posso ajudar.
Atenciosamente,
Alan Turing
(tradução gentil do inglês britânico para o português contemporâneo pelos anjos (agora caídos) que estiveram a instigar o povo da extinta Babel bíblica).
Minha resposta foi sucinta:
Caro Alan,
Inicialmente peço que perdoe chamá-lo pelo 1° nome, mas achei Mr. Turing por demais sisudo. Apenas lhe digo: fique tranqüilo. Veremos, não nego, retrocessos, mas a Roda da Vida gira sempre adiante, ao final. Consultei nosso jurista, Conselheiro Pavi, e ele compartilha esta opinião, também pela posição dos Poderosos, embora o Papa Palpatine pregue o contrário.
Humberto Eco já dizia que somos anões no ombro de gigantes. Tenha o orgulho de que não viveu nem sofreu em vão. Sua mensagem ficará para sempre aqui registrada.
Conselho pessoal: peça autorização ao controle de trânsito e compareça a algumas de nossas festas. Traga Harvey Milk com você. Sentirão que nada como a troca de felicidades.
Um abraço,
Alexandre Lucas.
P.S.: a Tábata já está agendando esteticista e médicos para reverterem suas seqüelas. O pessoal aí de cima é muito conservador e valoriza chagas. Águas passadas não movem moinhos.
"É difícil aprisionar os que têm asas" - Caio Fernando Abreu
“Desde muito novos temos uma estranha sensação nas costas. Custam-nos muito movimentos como o rastejar, o enterrar ou o arrastar. Olham-nos com desconfiança. Não entendemos bem o que nos falta e porque teimam em dizer que nos falta alguma coisa. Quando nos nascem as pequenas asas, existe uma tendência quase natural para as esconder, não vá o diabo tecê-las e apontarem-nos também o dedo por termos algo de extraordinário. Evitamos grandes exposições, somos discretos e naturalmente calados. Há medo e quase só em intimidade é que vamos abrindo as nossas pequenas asas. Os primeiros vôos fazem-se em casa onde, normalmente, nos impulsionam e exemplificam os vôos. Depressa nos habituamos às alturas, a ver as diferentes perspectivas da terra, das pessoas e objetos. Gostamos de dias de sol e de vento na cara. Em terra falta-nos algo, sentimo-nos presos, respiramos com dificuldade. Temos várias designações porque as pessoas gostam muito de rotular, etiquetar e tipificar sobretudo o que diz respeito aos outros. Uns chamam-nos cabeças no ar, alienados, almas do outro mundo e até loucos. Outros, porque não sabem bem quem são, procuram um modelo e dizem-nos heróis quando na verdade aquilo que temos é mesmo e nada mais do que asas. Vamos ganhando altura. As asas já não recolhem, em terra tropeçamos e derrubamos tudo. No céu, planamos e fazemos piruetas, somos ágeis. O acasalamento é difícil, não há muitas pessoas com asas, os rituais são arriscados e temos um pouso muito incerto. Mesmo em bando somos considerados um pouco solitários e muito independentes. Os anos vão passando, vamos envelhecendo, as asas ficam mais queimadas pelo sol, porém persistimos, insistimos no vôo. Fazemos menos milhas, temos necessidade de ir mais vezes à terra. Então aí reinventamos novas formas de voar e, às vezes, ficamos apenas parados a observar o céu e pensar que já conhecemos uma considerável parte do mundo.”
Margarida Fortuna, Palavras de Sabão
Margarida Fortuna, Palavras de Sabão
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